A boca da página

O poema é a dissecação de um cadáver vivo. Onde

o sol descreve um círculo na carne, a boca ao erguer

o peso da terra tombará como uma folha morta sobre

a margem da cara. Em vão é tudo o que se diz sem

odor a sangue, sem beber de um trago o contraste da

tinta aberta no quadro, a nódoa confunde-se com o tecido

geométrico do tédio, o traço de giz na pedra. Abrir as

veias com a sede de quem respira o apocalipse da espera

no vazio do corpo. Em oferenda ao primeiro lance de

escada: o sangue onde o ar comprime a boca da página.

Teatro absurdo

 

O tempo cristalizava adivinhas com títulos de filmes, palmeiras

generosas de taiti, uma página em carne viva de um romance

de dostoievski; e na pele temperada pela razão, o cigarro aceso

lembrava a lâmpada que trazia consigo a luz da de uma gravura

colorindo o livro de eleição: tróias em camadas sobrepostas bem

no fundo das pupilas e um parto de múmias em surdina – temos

 

casa com número na porta e em cima da secretária repousa a

cabeça de um patrão mais dócil do que um cão. Amén. Esta missa

 

é negra e pela encosta sopra a alma danada dos telhados: vinte e

dois minutos de ilusão – diga-se de evasão – e o jardineiro esquizo

frénico modela as árvores com a forma tosca de um homem com

 

asma de erosão; e nunca é sem dor o trabalho que afaga a tiros

de fogo a voz que clama a hora certa, o trilho, a rota da lotaria.

 

Corpo de delito

 

O retrato observa o infinito, talvez o dedo mínimo

do fotógrafo. Na tela é idêntico o cenário incerto

ao lugar onde o olhar conduz as sombras. Elas estão

 

a um canto do retrato, naúfragas da geometria incerta

do espaço e a sua trajectória indica a claridade que

habita em distantes estrelas do telescópio. O retrato

 

observa o infinito, talvez o dedo mínimo oculte o corpo

de delito da história e a chave secreta aflore o cadáver

 

à velocidade da hora. Porque leve e mortal é o gesto

suspenso nos lábios sobre a única planície do retrato.

 

Jogo de cavalos

 

Nas imagens cavalgam as ideias, espigas decepadas pela

mão divina, um anátema colorido pelos sons de um carnaval

imperceptível e o silêncio é a palavra e essa palavra a ideia.

 

Jogo de cavalos sobre um estrado de cartolina, maior que

o infinito é a criança, tão grande como o sol e vai rolando

o vento das unhas em passagem e dessa boémia nasce

o equilíbrio do corpo sobre as listas do tigre de benguela.

 

Essa é a temível porta da matéria. O ouro dos olhos pontua

o diário com espaço para um trabalho de escolha: aberta é

a estrada se plantada sobre o frágil exercício da memória.

 

Rituais

 

A pretexto de Les Bonnes de Jean Genet 

 

A frase branca citas em epígrafe, o pano caí em linha recta

sobre os ombros, é do momento de ruptura que se trata,

combóios perseguindo a linha recta, é do momento sobre

o qual se faz a pausa, suspensão do gesto e da memória,

flores a mais inúteis e mortais, um disco de chopin sobre

o telhado, os rios paralisados na angústia, três fêmeas

 

à volta de uma mesa, genet a presidir à cerimónia.

 

O machado levas ao pescoço, decepas a gravura de um barco

com nome de mulher que esconde sob a saia a tempestade.

 

É tempo de acabar, importa a tarde, a estação fazia-te lembrar

o apito das velhas carruagens, viagem em que a natureza fazia

parte de ti mesma; e o sonho que habita em teu sonho traz

a marca ao rubro de um corpo que nunca soubeste desenhar.

 

Animatógrafo

 

Quando os teus olhos enchem o bolso de pedras, a aurora

reflecte o crepúsculo no espelho da cidade. A voz longínqua

abre a porta do animatógrafo além do chão até à geometria

das alturas, o olhar pousado sobre o absurdo pavimento

 

das ruas. Estátuas desmoronam e renascem na memória:

há cromos repetidos para trocar em qualquer ocasião, numa

pausa de recreio, à espera de um cacilheiro, na esquina de

uma rua, sobre a ponte à hora de ponta e os espaços e branco

darão lugar a outros espaços numa simples troca de gravuras

 

transfigurando o velho no insólito – fáquir alheio ao sofrimento

do corpo, as imagens imprecisas desfilam em contra-luz: é o

paradoxo do actor, o teatro das sombras e o rosto da máquina

é o degrau da história e as escadas constróiem a ondulação

dos corpos em vagas anónimas. O sussurro do computador

 

atravessa o écrã da mente, o espelho desdobra a imagem

de todos os gestos, de todas as vozes à deriva no rectângulo

da caixa em programação contínua do consumo pálido do dia;

e para esse aquém teus olhos derivam: o relógio é a mapa do

génio da garrafa, retrocesso ao episódio da infância quando do

sotão partias no membro amputado de um barco a respirar ao

 

compasso do sol tocado pelos dias. Os passos atravessam as

horas, visitam os sinais, as portas libertam o riso e na retina

conduzem os passos até à última fila. Teu bolso semeia pedras

que desenham uma a uma o testamento de uma única sílaba.

 

Lugar

 

Ao Zé Galvão

 

É esse o teu lugar. As nuvens cantam a geração do mar,

sempre o mar, vaga mente o mar e o teatro do mar,

inadiável mente e tão só mente em si – semente aparecida

 

de qualquer lugar. É esse o teu lugar. Clara é a passagem

à sonoridade pura, ao sangue imóvel, à mágica textura;

e o corvo vem bater contra as árvores, cego pela febre

branca dos telhados, e paralela à vertigem das asas, a

 

respiração do mundo é o presságio: é esse o teu lugar.

 

O pêndulo tece a natureza efémera da terra. A noite acende

a cor de uma vela num fatigante açaime de cadela: o teu

lugar. As nuvens reclamam o movimento perene desse lugar. 

 

Dança vertical

 

A dança vem renascer a morte prematura

da terra e dionísio bebe o sémen no caule

 

efémero. Sobre os alicerces de água, a dança

vem soletrar os ventos a sustentar a oriente  

 

o hemisfério de desdémona – a boca unida

ao carrasco é prenhe de mistério e o cálice

 

derrama a palavra cega do universo ao sabor

da arte da balança. A dança vem acender  

o rumor das folhas em presença e lenta fere

 

o rio nas margens ao abrir à dor volátil os frutos

de maria e o ventre azul crescia a ouro e prata

sob o manto frio. Vem pela raíz e assim regressa

 

vertical a dança: quatro braços nus nas direcções

do espaço e o quinto oculto contempla a graça. 

 

Fantasma

 

É tarde. Perdemos o luar. A lua cheia é uma invenção.

Passámos de mãos dadas e não nos detivémos entre

os beijos furtivos que evitam o olhar. As palavras

 

morreram, as palmas das mãos cegaram, o corpo

dobrou-se e o vento soltou a flor moribunda. É tarde.

O abismo é uma tentação para os peregrinos, os cavalos

do tempo sopram sobre as nuvens, as asas da memória

tentam elevar-se mas não atingem o céu. As pálpebras

 

vão apagando os traços, a cor do esquecimento, as provas

vão criando o alibi de que o filtro mágico já não sangra

o braço. E em mastros e fantasmas, o barco dança

 

a fugaz passagem e navega a noite na pálida curva

de um retrato. É tarde. Supremo é o poder de quem

se entrega à criação do mar: nunca saberá o nome

a que se deu – nunca saberá que lhe pertence.

 

Pássaro

 

O teu ventre era uma bola de bilhar, a mesa era

o mar branco, o mar imenso, e a bola ía cair no mar.

 

Seguraste-o entre as pernas como se fosses jogar.

 

O teu filho era um barco de asas brancas, um cisne

pintado cor de frio, chamaste-o então sem nome

 

ou simplesmente do teu peito fizeste um ninho.