
Quando os teus olhos enchem o bolso de pedras, a aurora
reflecte o crepúsculo no espelho da cidade. A voz longínqua
abre a porta do animatógrafo além do chão até à geometria
das alturas, o olhar pousado sobre o absurdo pavimento
das ruas. Estátuas desmoronam e renascem na memória:
há cromos repetidos para trocar em qualquer ocasião, numa
pausa de recreio, à espera de um cacilheiro, na esquina de
uma rua, sobre a ponte à hora de ponta e os espaços e branco
darão lugar a outros espaços numa simples troca de gravuras
transfigurando o velho no insólito – fáquir alheio ao sofrimento
do corpo, as imagens imprecisas desfilam em contra-luz: é o
paradoxo do actor, o teatro das sombras e o rosto da máquina
é o degrau da história e as escadas constróiem a ondulação
dos corpos em vagas anónimas. O sussurro do computador
atravessa o écrã da mente, o espelho desdobra a imagem
de todos os gestos, de todas as vozes à deriva no rectângulo
da caixa em programação contínua do consumo pálido do dia;
e para esse aquém teus olhos derivam: o relógio é a mapa do
génio da garrafa, retrocesso ao episódio da infância quando do
sotão partias no membro amputado de um barco a respirar ao
compasso do sol tocado pelos dias. Os passos atravessam as
horas, visitam os sinais, as portas libertam o riso e na retina
conduzem os passos até à última fila. Teu bolso semeia pedras
que desenham uma a uma o testamento de uma única sílaba.