Catedral de incêndio

O senhor de negro solta a mão suspensa do cavalo.
Assim as estrelas repetem o seu brilho no ritual da
casa e embriagam as longas máscaras da vigília.

O prazer instala a construção da casa, a lenha do
retrato oblíquo na memória. Catedrais de incendios,

longas catedrais celebram as estátuas de prata,
pálidos sinais [...]

Coração apressado

Soltem os cães de açaime no requiem da memória:
eles não mordem a dor e a face apaga a outra face
no estuário da palavra. O universo é um outro nome
dado ao caleidoscópio, a contar e descontar a saga
das estações mortas em longas e curtas metragens.

Ao abandono se vota a rosa – flores [...]

A construção das coisas

  
Atiras-me o rosto contra o lume como se de
um exercício se tratasse, a lenta crispação
da chama, o odor inefável do perigo e essa
tentativa efémera de abandonar a fronte
 
sobre o ferro. Caiem pingos de água sobre
a estátua e os rios multiplicam o oceano.
Um cão ladra à lua caído sobre a sorte [...]

Rapsódia das horas

No ventre pesado das pálpebras, a esfinge acelera
o perfil das águas e percorre o litoral da profecia:
o olhar que pesa o ouro sobre o vento da ferida.

Há um clube de gémeos inquietando o fundo das
pupilas e o nevoeiro espelha o fogo sobre a Viúva
de Espáduas Vermelhas – tocar o corpo fantástico
entre [...]

Escrita indefinida

Essas, as palavras quando o silêncio era a palavra, o mar
enchendo o cais e a sombra das sílabas ancorava prenhe
nos sentidos. Abrir a porta às águas, partir, sentir, reter
a memória para a escrita indefinida – o momento que
acontece e o olhar suspende a eterna distância na hora

que regressa. Partir quando se liberta a [...]

Universus

A câmara é o olho do universo e eu sou aquela pessoa
sentada, mole na expectativa dos braços e das pernas,
suspensa nos degraus aéreos dos jardins de infância
que sobe as escadas sem pisar as árvores e a floresta
percorre o universo numa tela a um canto esquecida
 
no sotão labiríntico da terra. O [...]

Acto inacabado

A ave repousa do voo matinal, barco ancorado
em ébrios cantos, tambores, serpentes, crâneos,
enigmas no santuário da terra e o inferno fala

na senda dos passos, o corpo refaz o movimento,
paragem obrigatória no teu corpo, ressuscitando
papéis mortos à vela das cinzas de um retrato.

O tédio envolve-se na traça das rochas estéreis,
essas vigílias simples, [...]

A hora estática

 
O teu olhar metálico debruça-se do peitoril da janela.
Estás virado para as coisas. O teu olhar é a página em
branco onde se lê a mão jogando luminosa com as
sombras num vitral a preto e branco e sem reflexo na
estrada. O teu olhar metálico é a construção das coisas,
mesmo que não o saibas, [...]

Scriptorium

Viagens sem tempo, animais do tempo, as imagens
tecem a indelével teia do desejo rente ao desespero
dos barcos a envelhecer em terra. É a beleza da
contemplação do tempo. Os seus apeadeiros agitam
a palavra da poesia, derramam o corpo no fumo das
quimeras e os dias rastejam infinitas léguas e buscam

a pureza. [...]

Epitáfio

A  J.B.R.

in memoriam

Estou a morrer, sei que estou a morrer, caiem pingos de poeira
sobre o vestuário, há a cabeça de uma criança que anuncia
a tarde de insónia, a água que impele os detritos do dia para
a queda da noite e celebra o sacrifício da aurora. Estou a morrer
[...]