É tarde. Perdemos o luar. A lua cheia é uma invenção.
Passámos de mãos dadas e não nos detivémos entre
os beijos furtivos que evitam o olhar. As palavras
morreram, as palmas das mãos cegaram, o corpo
dobrou-se e o vento soltou a flor moribunda. É tarde.
O abismo é uma tentação para os peregrinos, os cavalos
do tempo sopram sobre as nuvens, as asas da memória
tentam elevar-se mas não atingem o céu. As pálpebras
vão apagando os traços, a cor do esquecimento, as provas
vão criando o alibi de que o filtro mágico já não sangra
o braço. E em mastros e fantasmas, o barco dança
a fugaz passagem e navega a noite na pálida curva
de um retrato. É tarde. Supremo é o poder de quem
se entrega à criação do mar: nunca saberá o nome
a que se deu – nunca saberá que lhe pertence.
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