
Atiras-me o rosto contra o lume como se de
um exercício se tratasse, a lenta crispação
da chama, o odor inefável do perigo e essa
tentativa efémera de abandonar a fronte
sobre o ferro. Caiem pingos de água sobre
a estátua e os rios multiplicam o oceano.
Um cão ladra à lua caído sobre a sorte das
casas; é tão lento o desenho do acaso, tão
breve o vento sob os passos. Devolvem-me
o eco entre as casas, doze espelhos para uma
só imagem, abro a porta, estou só e abro a porta:
- Olha, eles vêm certamente pela noite, conduzidos
por uma pista imaginária, virão esconder-se na
escada, virão porque os espero e há tantas palavras
nos jornais que podem servir de alibi e depois as
cartas que revelam nomes, profissões, locais,
idades. Quando olho os números ocorre-me a ideia
de um testamento e construo uma barragem contra
a estação morta onde as vagas se revolvem por um
vai e vem de bolas de sabão lançadas do cimo de
uma escada; e descemos pelo corrimão do tempo.
Gostava que nele estivesses sentada como uma
madona implacável olhando o porto para onde
os olhos convergem onde quer que os anos se
encontrem e que nesse olhar te devolvam o
testemunho secreto de uma obra eterna. É tão
simples o rasgar da tarde, o fechar do dia, a carta
em que se escreve a citação da escola e vejo-te e
consome-me olhar-te porque, entre contemplar
e desejar, nada há mais do que esse pequeno
hiato de quem espera o elevador no patamar da
escada que há-de levá-lo a um voo de céus, pontes
movediças entre estrelas – barcos num desenho
de criança: astronautas, jockeys, marinheiros…
Baloiço-me no tédio da linha contínua da paisagem,
não posso julgar-te encerrada no pincel que traça
a natureza e parto com a dor de quem sujou as asas
nas tatuagens do templo da memória onde os pés
lavam os estigmas da terra. Quando na tela humana
houver um recado sobre a hora, aí talvez o tempo
se demore no jardim suspenso sobre a infância onde
te veja sorrir ao iniciares a construção das coisas.