O cântico da casa

 

Sob as narinas fumegantes da cidade, o tempo amortalhou

a silhueta no olhar  -  um espelho e calaram-se as gargantas

no segredo com pálpebras atreladas a um carro de vulcões

 

alados. O piano tocava a primeira valsa no atalho secreto

da palavra, ascensão e queda do dilúvio, o sol a meia

lua sobre a mesa, a linha dos barcos lançava a rede sobre

 

o gráfico da casa. Viajante no dorso das escalas, o rosto

abraçava o teclado na infinitésima parte do recado, aposta

múltipla das águas e um manuscrito revelava que o segredo

 

era como o esboço labiríntico da cara. O tempo abria a cicatriz

na cara, um riso saboreava o travo a mel da casa e nas asas

bordadas em tecidos de mármore as parcas afiavam as unhas 

com um grito de quebrar feitiço a assombrar o cântico da casa.

 

Asfalto

 

Frases carismáticas são corvos ao vento a encimar cataventos,

crianças são pretexto em tudo, nada efeitos a emoldurar a tarde

no presságio do tempo. A proximidade do instante é a árvore

decepada no momento em que o lenhador suspende o tempo

 

do seu gesto: era fácil construir o momento em que o machado

decepa a corda e permanece no sino derrubado após o assalto,

condenado que levanta o cadafalso. Na porta vizinha, o telefone

canta musical e olhas a rua triste, as varandas pálidas, o sol

que se despede entre luzes que esgotam o múrmurio do céu.

 

Junto à memória nasce a guitarra a que a sorte se abandona num

jogo de prestidigitação, a que se entrega a paixão, a pura e eterna

ilusão, rolando á superfície da pedra; e no asfalto os encontros

vestem a poeira, câmera ao ombro para recriar a alma sem alma ou

com múltiplas almas a que agora pertence a imagem; vais seguindo

 

outros fins através da espinha dorsal da máscara: a mão rasga

o saco do supermercado que guarda as horas do dia pagas; e o

asfalto é o mundo, a vela, o mastro, o navio fantasma, a fronteira

entre olhar a árvore e nela ser o tronco que entre olhos voava.  

 

Recado anónimo

Pela mão que escreve a noite envio-te um recado

anónimo: há velas que tecem um bordado efémero

na terra. Envio-te as luzes e a mão enche-se de

pequenos objectos pouco antes da cena iluminar

a máscara. Há faróis acesos na curva da estrada,

a roda de um carro caminha para a morte e um longo

travelling percorre os corpos antes de amanhecer o

tempo. Penetro o labirinto com os dedos, afago com

moleza a teia e o canto do cisne é o silvo da serpente,

o estertor de um pássaro no calor da tarde. Vem,

não venhas:

há bilhetes que se deixam na noite e depois um gesto

e tudo o que não foi porque a morte é a invenção do

homem que aprisionou na rede do tempo a natureza.

Há um anónimo sinal, um ponto que se apaga facilmente,

na curva da paisagem construo o paradigma do desejo

e nesse ponto vago e impreciso dou-te o pensamento

para brincares à cabra cega ou à leitura do borrão de tinta:

vem, não venhas, regressa pela memória que escreve a noite

e o corredor conduz às sete portas antediluvianas com as

sete chaves que abrem a manhã: há para ti o olhar que não

se vê, o pressentimento do sorriso, o fim, o início, esse lugar

da atemporalidade dos espaços – é para ti a longa caminhada,

a dor de abrir as portas e o tempo cumpre o ritual de iniciação

onde as constelações se jogam à distância. Vem então: hoje

sopra o rosto de maré. Quero ver-te destes olhos e fixar na

carne o dia que tece a noite em redor de um ciclo de mistério.

Fetiche

Sobre o corpo dançante é o cavalo, o gato com cauda

de serpente: coleccionas fetiches, o tempo aprisionado

nos relógios, o seco palpitar da imagem nos lugares do

corpo, essa paisagem de geometrizantes formas de

desejo. No percurso da primeira hora do crepúsculo, tocas

a metamorfose do oceano quando o piano abre a janela e a

fábula transporta os degraus invisíveis do cansaço até ao

jardim suspenso do sangue a transbordar o dique das veias

– estás diante de mim – empresta-me os teus olhos – há um

monstro de cera em profanda oferenda sobre a mesa, esfinge

que coloca o enigma dentro de uma clepsidra sem vidro; e

vais embriagado abrir a porta, pedra no vento que é hora

como quem brinca a uma ficção de namorados de escola.

Parábola

A janela recorta-se no quadrante leste da paisagem:

Junto aos vidros nasce a prisão da aurora quando

o tempo demora a águia que transporta a presa

e a devora. Estou de costas para o mar – é esse

o homem – naugrágio de um marinheiro cansado

e as águas rodeiam-no de misteriosas formas:

tambores no útero embalam o movimento de um

potro selvagem no horizonte da página e cada

palavra é um prelúdio à morte da imagem nesse

horizonte queimado pela desordem dos rios.

Estou de frente para o labirinto da engrenagem:

a senha é a geometria da palavra, passaporte que

divide a hora em simulações de um navio fantasma

e a membrana da hora sufoca a âncora de um requiem

esculpido no ar. A geografia do sangue, o tambor do

corpo vestido de letras que pisam o livro e repousam

a nota suspensa do abismo entre o fazedor e a ideia.

Alimento-me do sonho e conto-lhe estórias para

ao sonho regressar como um filho pródigo a casa.

Estou em bicos de pés sobre a cidade: a música

invade o despertar de uma ária barroca, serpente

fabulosa de um conto chinês de onde me despeço; e o

tempo suspende o abandono das pálpebras na estação

por onde o vento passa. Canta-me os pássaros, a corda

espessa que liga o continente a outro promontório de

gente. Porque deserta é a colina que avisto nessa

debilidade de criança, parábola que fala à claridade

lunar do peito e remota é a canção solar do universo.

Corpo vibrátil

Em passos breves exalas a memória e a música

encena o fim de tarde, os lobos da montanha

glacial, o pêndulo das noites de luar – é o tempo

do espaço de uma mão como quem parte pelo rio

no fervor das águas de domingo. A cidade inaugura

o precioso tráfego de salão: o músculo óptico da

ilusão abre o olho da bússula de cimento. Repetes –

é preciso educar os sentidos, é preciso saír do corpo

como um espelho se estilhaça por excesso de imagens

e lentamento é o barroco de um retrato: vais deixar o

pássaro libertar-se no aceno distante de um rosto.

Não é por esta praia que regressas, a transparência

das formas tece a sorte dos corpos que se afogam nos

nos espelhos. Falas da cidade e o teu rosto insiste –

é hoje noite – esperança de um condenado à morte, good

old days, um retrato de Dean e a silhueta forma um corpo

vibrátil na areia. O adeus talvez seja o grito do oceano

a despertar o fervor da tarde: tens a memória turva,

o tempo escasso, antes ler um policial a ouvir o mar,

a melodia pela melodia, a punição do verbo e a justiça.

Solidão aparente

 solitude 

 

O silêncio dorme à porta dos sentidos na infinita

proximidade da distância: quando há regresso, há

partida e a cena permite a desmontagem do acto

em plano fixo. Partem as águas e a corrente permanece

intacta com a angústia de estar frente ao vidro da mente;

a triste tela desvela a solidão aparente do clown no dorso

das letras, no olhar baço do vento enquanto permanece

intacta e não haverá estilhaços no relógio da sala

 

discretamente ausente: fecho a mão do relógio e o muro

dessa paisagem de circularidade absurda encosta a silhueta

a impedir a passagem: – É o mágico telúrico do espaço,

assim paralisado sob a plataforma da estrada que conduz

ao muro branco e passa para o outro lado como se entrasse

num reflexo de água e emergisse, o braço levantando a

 

espada e a fábula: aí regressava antes do corpo celebrar

a estrada e tactear a margem buscando ansiosamente

no fundo da água o nome que lhe devolvesse a imagem.

 

Catedral de incêndio

O senhor de negro solta a mão suspensa do cavalo.

Assim as estrelas repetem o seu brilho no ritual da

casa e embriagam as longas máscaras da vigília.

O prazer instala a construção da casa, a lenha do

retrato oblíquo na memória. Catedrais de incendios,

longas catedrais celebram as estátuas de prata,

pálidos sinais como se o vento as tivesse banhado

no silêncio da cinza. Sob o leito do rio, as margens

são o altar do tempo, abrem o mistério ao sacrifício

e a água reflecte a multidão na voz crepuscular da

espada. As catedrais deslizam no tabuleiro do jogo,

rasgando o horizonte que separa o cálice e o líquido,

o nome e o desejo; e o fio da tarde regressa ao tempo

dos telhados queimados, à natural origem do mistério,

ao olhar que habita no seio do calor a presa. A mulher

aduba o rosto com o frio, tacteia a curva cilíndrica

do espaço: à hora milimétrica dos corpos cumpre-se

a temporalidade dos espaços: – Os olhos são apenas

o vestígio de um pássaro sem sobressaltos de asas

e na mão pousada sobre a alma toca-se as primeiras

sombras do crepúsculo, a janela aberta sobre a fábula.

Coração apressado

Soltem os cães de açaime no requiem da memória:

eles não mordem a dor e a face apaga a outra face

no estuário da palavra. O universo é um outro nome

dado ao caleidoscópio, a contar e descontar a saga

das estações mortas em longas e curtas metragens.

Ao abandono se vota a rosa – flores para los muertos

- diz a voz – flores para o vento e a distância.

Mas o efeito cénico não resulta porque a actriz estava

de perfeita saúde e o seu dentista de batuta em punho

conduzia os ensaios do último acto de um coração

apressado. Soltem os cães raivosos do arco-íris

da palavra. O amante não encontra o amado e

o vento dissemina a mortal morada contra a pista

do circo na ponta de um cigarro – devia amar-te

no degrau do trapézio sobre a escada, na sublime

transparência que habita o rio na encruzilhada.

A construção das coisas

  

Atiras-me o rosto contra o lume como se de

um exercício se tratasse, a lenta crispação

da chama, o odor inefável do perigo e essa

tentativa efémera de abandonar a fronte

 

sobre o ferro. Caiem pingos de água sobre

a estátua e os rios multiplicam o oceano.

Um cão ladra à lua caído sobre a sorte das

casas; é tão lento o desenho do acaso, tão

breve o vento sob os passos. Devolvem-me

 

o eco entre as casas, doze espelhos para uma

só imagem, abro a porta, estou só e abro a porta:

- Olha, eles vêm certamente pela noite, conduzidos

por uma pista imaginária, virão esconder-se na

escada, virão porque os espero e há tantas palavras

nos jornais que podem servir de alibi e depois as

cartas que revelam nomes, profissões, locais,

 

idades. Quando olho os números ocorre-me a ideia

de um testamento e construo uma barragem contra

a estação morta onde as vagas se revolvem por um

vai e vem de bolas de sabão lançadas do cimo de

 

uma escada; e descemos pelo corrimão do tempo.

 

Gostava que nele estivesses sentada como uma

madona implacável olhando o porto para onde

os olhos convergem onde quer que os anos se

encontrem e que nesse olhar te devolvam o

testemunho secreto de uma obra eterna. É tão

simples o rasgar da tarde, o fechar do dia, a carta

em que se escreve a citação da escola e vejo-te e

consome-me olhar-te porque, entre contemplar

e desejar, nada há mais do que esse pequeno

hiato de quem espera o elevador no patamar da

escada que há-de levá-lo a um voo de céus, pontes

movediças entre estrelas – barcos num desenho

 

de criança: astronautas, jockeys, marinheiros…

 

Baloiço-me no tédio da linha contínua da paisagem,

não posso julgar-te encerrada no pincel que traça

a natureza e parto com a dor de quem sujou as asas

nas tatuagens do templo da memória onde os pés

 

lavam os estigmas da terra. Quando na tela humana

houver um recado sobre a hora, aí talvez o tempo

se demore no jardim suspenso sobre a infância onde

te veja sorrir ao iniciares a construção das coisas.